{"id":1177,"date":"2024-09-05T17:41:48","date_gmt":"2024-09-05T17:41:48","guid":{"rendered":"https:\/\/www.apordoc.org\/?p=1177"},"modified":"2024-09-06T15:50:04","modified_gmt":"2024-09-06T15:50:04","slug":"augusto-m-seabra-1955-2024","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.apordoc.org\/?p=1177","title":{"rendered":"AUGUSTO M. SEABRA (1955-2024)"},"content":{"rendered":"\n<p>Augusto M. Seabra dizia que a programa\u00e7\u00e3o \u00e9 uma extens\u00e3o da cr\u00edtica. A cr\u00edtica como modo de estar no mundo, procurando ler as rela\u00e7\u00f5es entre coisas distantes e pr\u00f3ximas, entre as pr\u00e1ticas e os gestos, e devolvendo-os em forma de pensamento. Um pensamento sem hor\u00e1rios de expediente nem fronteiras disciplinares, mas que se concretiza em escolhas, precis\u00f5es e tentativas que oferecem a quem quer receber a tessitura das suas d\u00favidas e paix\u00f5es. A programa\u00e7\u00e3o de cinema como extens\u00e3o da cr\u00edtica \u00e9, para Augusto, uma forma de convocar o mundo para se pensar cinematograficamente \u2014 portanto, uma quest\u00e3o de vida.<\/p>\n\n\n\n<p>No cat\u00e1logo do Doclisboa 2007, o ano em que Augusto come\u00e7ou a construir os Riscos que hoje conhecemos, o primeiro filme que aparece nessa sec\u00e7\u00e3o \u00e9 <em>Compilation, 12 instants d\u2019Amour non Partag\u00e9s<\/em> de Frank Beauvais. A felicidade da organiza\u00e7\u00e3o alfab\u00e9tica dos filmes oferece-nos esta sinopse dos encontros entre Augusto e as coisas. O amor que encontra as suas formas na n\u00e3o retribui\u00e7\u00e3o, a m\u00fasica como espa\u00e7o e mat\u00e9ria de partilha de um mundo que, por si s\u00f3, \u00e9 desencontrado, desarticulado, oferece solid\u00f5es. E a viol\u00eancia disso tudo \u00e9 um pouco mais doce, se se d\u00e1 aos outros num encontro fortuito de uma sala de cinema, de um concerto, de uma conversa.<\/p>\n\n\n\n<p>Numa hist\u00f3ria feita de multiplicidades, por muitas pessoas, Augusto \u00e9 um dos fundos vitais do Doclisboa. Foi seu programador associado, director de programa\u00e7\u00e3o, co-director. Mas sobretudo ensinou-nos, aos que tivemos a felicidade de aprender com ele, as alegrias de discutir filmes com o pensamento inteiro. Levar a pele a jogo, p\u00f4r o nosso mundo todo em cima de uma mesa partilhada e deixar que a discuss\u00e3o nos oferecesse a forma final do nosso trabalho. Augusto tinha a generosidade de nos enfrentar e desafiar, acompanhando-nos nas del\u00edcias de descobrir que programar filmes \u00e9, antes de tudo, uma actividade de rigor e prazer profundo. Uma actividade em que os filmes, tudo o que eles s\u00e3o e envolvem, s\u00e3o o fio de prumo e a raz\u00e3o de vida do festival.<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso Augusto \u00e9 insepar\u00e1vel do Doclisboa, mesmo anos depois de decidir que era tempo de sair porque n\u00e3o se queria \u201ceternizar\u201d. Era assim que dizia, mas a verdade \u00e9 que ainda hoje persiste em cada momento em que um de n\u00f3s precisa de se relembrar de como fazer o que faz. Da mesma forma, \u00e9 insepar\u00e1vel da constru\u00e7\u00e3o de pensamento sobre o cinema, sobre a arte e a cultura em Portugal. Ofereceu chaves de leitura que nos abriram espa\u00e7os para compreendermos melhor, todos n\u00f3s, o que fazemos. Pensamos na bela express\u00e3o \u201cGera\u00e7\u00e3o Curtas\u201d, pensamos nos ciclos de di\u00e1rios e auto-retratos filmados que programou muito antes de essa forma f\u00edlmica se tornar quase omnipresente. Pensamos na autonomia cr\u00edtica com que se afirmou \u2014 a soberania do pensamento escolhe tudo, ou n\u00e3o serve para nada. Augusto podia ser aut\u00f3nomo, porque sabia que a transmiss\u00e3o do pensamento \u00e9, em si mesma, a sua mat\u00e9ria. N\u00e3o precisa de retribui\u00e7\u00e3o, oferece-se a todos, mesmo que dif\u00edcil e contradit\u00f3rio.<\/p>\n\n\n\n<p>No filme <em>O Espectador Espantado<\/em>, de Edgar P\u00eara, Augusto diz a certa altura que o que mais gosta no cinema \u00e9 de se surpreender pelo inesperado de um plano que surge relativamente ao que lhe antecede. \u00c9 este olhar dispon\u00edvel para a surpresa e para apaixonar-se a cada nova cena de um filme que guardaremos e honraremos a cada nova edi\u00e7\u00e3o do Doclisboa. A for\u00e7a com que Augusto por vezes come\u00e7ava uma conversa levantando a cabe\u00e7a, pousando a m\u00e3o na mesa, e dizendo \u2014 eu vou defender este filme.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi um privil\u00e9gio ver e discutir filmes consigo, Augusto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\">Apordoc e Doclisboa<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Augusto M. Seabra dizia que a programa\u00e7\u00e3o \u00e9 uma extens\u00e3o da cr\u00edtica. 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